Aquela simples carta entrou em minha casa, sem que eu soubesse o quanto me iria mudar, o quanto iria mudar a minha vida.
Dizia:
"Não sei quem és, como te chamas, ou como vives a tua vida. Quero apenas deixar algo que a vida me ensinou, um pequeno conselho que te poderá ser útil: ouve os outros, mesmo quando eles não falam. Isto pode salvar vidas, sabes ?
Sinto que a vida é cada vez mais vã, povoada de inúteis futilidades e, infelizmente, também egoísmo. Eu, também devia ter sido mais altruísta, admito. E arrependo-me de não o ter sido, de todas as horas em que pensava apenas no meu umbigo, nas minhas necessidades. Eu também tenho a perfeita noção que me estou a contradizer neste momento, pois, ter-te enviado esta carta, tem a sua cota parte de egoísmo. Mas acho que já chega de falar sobre esta pesada palavra.
Continuando... tudo à minha volta está cada vez mais opaco. Já nada brilha, já nada me chama a atenção ... nem a música, uma das coisas mais preciosas na minha vida, me fala mais. Ficou muda, de repente, como se a fita acabasse. Ou, simplesmente, tivesse deixado de existir.
Já não me encaixo em nenhum dos mundos à minha volta, cada vez mais atravesso portas que não vão dar a lado algum... pois nenhuma delas me leva onde quero ir. Perdido. É o meu estado neste momento e o mais preocupante é que não me consigo encontrar. Não é por falta de tentativas. Cada vez que encontrava um mundo novo, tudo corria normalmente, quase bem. Mas ... subitamente aparecia. Um monstro que parece perseguir-me para onde quer que vá. E, assim, mais uma vez, saía desse mundo por uma nova porta que me levava para outro, onde o ciclo começava, comigo sozinho, mais uma vez.
Eu tentei fechar os olhos, tentei não pensar, tentei bloquear o meu sombrio discernimento, mas ele venceu-me. Aí percebi, que já não conseguia divertir-me, aproveitar fosse o que fosse.
A minha vida estava igual às rosas que deixei ontem na campa da minha mãe. Murcha. Insignificante.
Sabes, o tempo passa, mas não é invencível. Há histórias, acontecimentos que persistem na única coisa que consegue se opor ao tempo, a memória. No entanto, esta só vence por vezes... E, para minha desgraça, a minha fortuna ditou que a minha memória vencesse este duelo tão antigo quanto o primeiro homem.
Não desejo voltar atrás, garanto-te. Mas também não consigo aceitar as mudanças crescentes que tornaram o meu mundo irreconhecível. E que, aos poucos o desfizeram.
Deves estar a perguntar-te, qual é a relação que isto tem com o meu conselho.
Na verdade, mais do que pensas, asseguro-te.
Sabes, ao mesmo tempo que perdi o meu mundo, também perdi tudo o que fazia parte dele, incluindo as pessoas. O diálogo acabou. Não conseguia falar e, elas também não conseguiam ouvir. As ligações enfraqueceram até que o frágil fio que restava se quebrou.
Mais ninguém me ouviu a partir daí. Já ninguém me compreendia ou via com vontade de ver.
A rotina de saltar de mundo em mundo enfraqueceu-me, tornei-me tão quebradiço como um copo de cristal.
E, mais uma vez, estava outra vez sozinho. Ninguém me podia salvar agora.
Aí, compreendi. Todo o final é solitário, tal como eu fui nos últimos tempos.
Por isso, já nada me resta. Este é o meu final.
E, por isso, antes das cortinas se fecharem de vez, queria apenas deixar este conselho.
Espero que estimes este conselho e o uses, se for necessário, e, ao mesmo tempo, espero que nunca o tenhas que utilizar. Porque ele não foi utilizado...
O cansaço atordoa-me cada vez mais. Parece que os comprimidos estão a fazer efeito.
Agora vou entregar-te esta carta e visitar uma última vez a campa da minha mãe.
Provavelmente vou ficar lá, é mais simples desta forma.
Adeus ,
Levi"
Esta carta abriu-me os olhos e estou imensamente agradecida a quem me a enviou. Realmente salvou vidas.
Dias mais tarde, depois da chegada desta carta, soube que fora encontrado um corpo no cemitério. Alguém morrera lá. O nome dele era Levi.